domingo, 20 de março de 2022

Economia com psicanálise é possível? Carta-relatório a amigos de México e Uruguai (2020)

    A cidade de Roteiro está localizada no litoral sul do estado de Alagoas, a 50 quilômetros da capital, Maceió, no Nordeste do Brasil. O pequeno município tem aproximadamente 6.650 habitantes (BRASIL, 2020) e uma área total de 128,926 km2. Abrir um consultório particular de psicanálise em Roteiro e torna-lo uma atividade rentável e lucrativa é, sem dúvida, um grande desafio. No município, atualmente, qualquer psicanalista da iniciativa privada irá esbarrar com algumas grandes dificuldades de natureza econômica. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, em 2018, ano em que foi feito o último levantamento sobre trabalho e renda dessa população, o percentual de pessoas ocupadas com alguma atividade remunerada era de apenas 10,5%, ao passo que 50,1% da população tinha renda média mensal de até meio salário mínimo (BRASIL, 2020), isto é, 522,50 reais ou 97,67 dólares (BRASIL, 2020), o que ilustra a condição econômica precária da população do município e poderia advertir que na cidade há poucas pessoas capazes de manterem honorários próximos da média que se apresenta em outras localidades, como a capital Maceió.

    Além dessas dificuldades em si alarmantes, o psicanalista que se proponha abrir um consultório na cidade costeira ver-se-á também diante de barreiras de ordem subjetiva, que, na verdade, refletem a realidade da maioria dos iniciantes nessa profissão, como o seu grau de reconhecimento diante de seu público-alvo e de seus colegas e mesmo o grau de reconhecimento da própria psicanálise perante a sociedade, além dos processos inconscientes de resistência ao tratamento por parte das pessoas atendidas, mesmo aquelas que acreditam firmemente no tratamento. É antiga a busca de espaço da psicanálise diante das barreiras impostas por outros paradigmas psicológicos e tipos de psicoterapia mais afeitas a certo pragmatismo localizacionista, que se instrumentalizam com inúmeros artifícios materiais, como os medicamentos psiquiátricos e os testes psicológicos, ao passo que a psicanálise resume seu escopo e seu material de trabalho à palavra, isto é, à fala do analisante e à intervenção oral do próprio analista. Como o leitor certamente percebe, ambas dificuldades, as objetivas e as subjetivas, irão ditar o fluxo de pessoas no consultório do analista e também o seu fluxo de caixa.

    Diante desses entraves, pode-se considerar inviável estabelecer um consultório particular de psicanálise em Roteiro? Bom, se formos considerar apenas os números oficiais, a viabilidade se dificulta. Mas estamos aqui falando de psicanálise, essa prática clínica cuja marca característica é certa marginalidade em relação a todo e qualquer discurso oficial. Por isso, o psicanalista não costuma recuar diante das adversidades, nem tampouco se satisfaz com aquilo que qualquer instituição especializada em dados estatísticos diz sobre as populações, pois entende que elas jamais chegarão a um número absoluto, que dê conta de todas as particularidades de um público qualquer. Assim, ele vai até à população lhe ouvir, vai se inserir em determinada região para sentir de perto as dificuldades e localizar as oportunidades, ainda que esse movimento também não vá possibilitar a apreensão perfeita e completa da realidade de um estrato populacional qualquer, pois nem a psicanálise nem qualquer esforço humano é capaz de apreender o Real (FORBES & RIOLFI, 2014), essa instância que alguns filósofos chamam “a coisa em si”, sem nome ou representação numérica, livre de todo viés subjetivo do olhar humano. Com efeito, qualquer avaliação humana de um evento, de uma população etc. está fadado a não passar, no fim das contas, de uma opinião, mesmo que haja algum tipo de consenso em tono dela. A própria condição imposta pela ciência de que qualquer ideia ou teoria seja refutável atesta isso.

     Aliás, é necessário observarmos que a figura do psicanalista, de um modo geral, aquele que possui formação e opera a psicanálise, não pode se confundir com a figura do psicanalista x ou y em específico, dotado de suas particularidades e história pessoal. Por isso, é preciso observar que o modus operandi ao qual me refiro neste post reflete o meu fazer clínico particular – o meu modo de fazer clínica, eu, Samuel Melo – e também se refere ao caso específico da cidade em questão e da minha relação particular com ela e com sua população. É importante não esquecer que a prática da psicanálise, como qualquer profissão, é inevitavelmente atravessada pela singularidade do profissional e não pode ser analisada fora de seu contexto.

    A minha história pessoal e minha formação influenciam grandemente meu “olhar empreendedor”. Antes de me formar em psicologia, ao longo do curso de técnico em biocombustíveis, eu percebi a importância econômica e ambiental de se reciclar os materiais, reaproveita-los e reduzir a produção de resíduos sem utilidade e que sejam danosos ao meio ambiente. Esse aprendizado em grande medida se reflete no meu dia-a-dia de consultório quando busco trabalhar com uma lógica que costumo chamar de “logística reversa aplicada à psicanálise”. O que seria isso? Bom, trata-se de buscar sempre estar atento aos restos, ao que sobra de uma determinada interação, tal como a relação de consumo entre uma empresa e um cliente, que produz vários “restos”, sendo um deles o resíduo sólido. É preciso dar uma destinação correta e, na medida do possível, lucrativa, para esse resíduo; e acredito que isso também seja válido para a psicanálise no seu estudo das relações humanas e seus processos subjacentes.

    No dia-a-dia do meu consultório eu costumo receber um público específico trazido a mim por uma demanda que eu chamo de “resto de outras clínicas” (esteja claro que assim chamo o tipo de demanda, não as pessoas!). São sujeitos que, para tratarem seu sofrimento psíquico, recorreram antes de mim a diversas formas de psicoterapia e intervenções clínicas que têm uma visão muito limitada do acontecimento psíquico, uma vez que ignoram os “resíduos psíquicos” que extrapolam os processos da consciência, isto é, não atentam para aqueles processos de natureza inconsciente que a psicanálise observa muito bem, como a “pulsão de morte”, energia psíquica que lança por terra qualquer argumento que defenda a existência de uma plena tendência à autoconservação no humano. Quando numa sessão de análise eu observo que o sujeito que atendo em algum momento se vê arrebatado por impulsos autodestrutivos inerentes ao psiquismo humano, eu estou reconhecendo a existência de algo que resta, que sobra como um excesso indesejado à consciência; estou reconhecendo a coexistência de uma pulsão de morte e de uma pulsão de vida, uma ambivalência que a psicanálise considera natural, tal como é absolutamente natural que uma porção de biscoitos (produto desejado) e sua embalagem plástica (produto indesejado) coexistam e formem um “todo”, que é o “pacote de biscoitos”. Algumas empresas irão fazer a Logística Reversa desse indesejado e inevitável pacote plástico, outras não; o psicanalista representa essa empresa que o faz!

    Assim como para o célebre químico francês Antoine-Laurent de Lavoisier “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, para a psicanálise é necessário dar um tratamento, uma destinação a todos os conteúdos que se tornam visíveis a partir da fala do sujeito, pois é justamente o mecanismo do recalque, a rejeição desses conteúdos, que caracteriza o adoecimento psíquico, na medida em que eles retornam inevitavelmente na forma de sintoma neurótico ou delírio e alucinação psicóticos, tal como poeira escondida debaixo do tapete (FREUD, 2019). A psicanálise entende que é preciso fazer algo também com esses impulsos de morte, algo como um desvio de curso de um rio que transbordou e está na iminência de inundar uma cidade. Negar a existência de processos e conteúdos que contrariem a ordem e a organização da consciência, como algumas intervenções clínicas fazem, não vai ajudar na resolução do problema da pessoa em sofrimento, pois é preciso reciclar, reaproveitar esse excesso e não amontoá-lo em lixões.

    O que primeiramente me impulsionou a iniciar os atendimentos em Roteiro foi o relato de minha mãe, residente na cidade e pastora evangélica, de que muitos membros de sua igreja estavam fazendo uso de medicamentos psicoativos, receitados por psiquiatras da rede pública de saúde do município, e de que não estavam encontrando espaço de fala, por uma série de razões que as impediam de chegar até o serviço psicológico público, o que levava essas pessoas a buscarem outros espaços de escuta que não os consultórios de psicologia das Unidades Básicas de Saúde da cidade, sendo o gabinete da pastora um dos destinos desses cidadãos. Foi aí que percebi que em Roteiro os resíduos psíquicos de grande parte da população não estavam recebendo a devida atenção; não se estava fazendo a Logística Reversa dos processos inconscientes de muitas pessoas dali e, movido ao mesmo tempo por um ideal humanitário inerente à psicanálise (DANTO, 2019) e por uma visão de crescimento material e profissional, decidi ofertar atendimento psicanalítico privado a essa população, tal como uma empresa especializada em gestão de resíduos, que se anima tanto pelo lucro de sua atividade quanto pelo impacto ambiental positivo que irá causar. Assim, a minha oferta de atendimento psicanalítico em Roteiro se deu, em grande medida, em virtude do que restou da relação entre a população e a rede pública de saúde. Novamente, meu trabalho surgiu na cidade como último recurso de algumas pessoas que antes recorreram aos medicamentos psiquiátricos e, desse modo, meu público-alvo continua a ser trazido a mim pela via da demanda que chamei anteriormente de “resto de outras clínicas”.

    Apesar de ainda muito recente para possibilitar uma análise aprofundada de lucratividade, essa intervenção tem se mostrado, desde o início de outubro deste ano (2020), economicamente viável, uma vez que consegui superar suas três principais dificuldades: 1) meu reconhecimento diante do público-alvo; 2) o baixo poder de compra da população e; 3) a disposição de espaço adequado aos atendimentos. Consegui galgar o primeiro entrave fazendo uso da minha fama na cidade, uma vez que sou conhecido pela organização de alguns movimentos sociais de literatura e de arrecadação de donativos em situações de emergência, além de ter residido no município e trabalhado como vendedor de sorvetes, o que me colocou em contato direto com as pessoas durante alguns anos. Além disso, sou filho de uma pastora evangélica proeminente do município, o que me coloca também em posição de destaque na localidade. Assim, bastou me articular com minha mãe para informar a comunidade acerca da oferta de serviço psicanalítico privado para que logo surgissem os primeiros interessados. O segundo obstáculo, a baixa renda da população, consegui transpor através de uma forma alternativa de pagamento – me dispus a receber das pessoas da cidade aquilo que elas pudessem pagar, fosse uma quantidade em dinheiro, fosse algum serviço ou produto, o que significou na prática ora razoáveis valores em dinheiro, ora valores baixos, produtos da terra, como bananas, cacau, mamão, macaxeira, peixes, frutos do mar etc. que, no fim das contas, têm me proporcionado uma rentabilidade financeira acima do ponto de cobertura. Consegui, inicialmente, dois espaços de atendimento na cidade de forma gratuita, cedidos pela igreja de minha mãe, o que extinguiu a terceira dificuldade da intervenção, ou seja, aquela relacionada ao espaço para realização das sessões. Depois da primeira semana de serviço, cheguei à conclusão de que o atendimento virtual, por chamada de voz ou de vídeo, é possível para essa população e, ao mesmo tempo, é logística e sanitariamente mais viável no atual momento, já que assim passo a não ter os custos da viagem de Maceió até à cidade e já que esse tipo de atendimento garante segurança diante da pandemia da Covid-19.

    O consultório de psicanálise é uma empresa de um ramo extremamente arriscado, o da “economia psíquica”. A presença do analisante nas sessões é uma variável que está constantemente à deriva, sendo influenciada por fatores de ordem consciente e inconsciente, bem como econômicas e sociais. O sucesso experimentado até agora pelo estabelecimento de meu consultório virtual em Roteiro não está e não estará jamais absolutamente garantido, justamente pela indeterminação que marca essa prática profissional que toca o mercado das ações do psiquismo humano, tão ambivalente quanto interessante de se estudar. Contudo, tenho conseguido garantir atendimento psicanalítico a essa população que até então não dispunha de clínica particular. O trabalho segue em frente!

Referências

BRASIL. Banco Central do Brasil. [acesso em 27 de novembro de 2020]. Disponível em https://www.bcb.gov.br/

BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades e Estados. [acesso em 27 de novembro de 2020]. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/roteiro/panorama

DANTO, Elizabeth Ann. (2019). As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social, 1918-1938. Tradução de Margarida Goldsztajn. São Paulo, SP: Editora Perspectiva. (Coleção Estudos).

FORBES, Jorge; RIOLFI, Claudia. (2014). Psicanálise: a clínica do Real. Barueri, SP: Editora Manole.

FREUD, Sigmund. (2019). Neurose, psicose, perversão. Tradução de Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora. (Obras Incompletas de Sigmund Freud).


domingo, 16 de janeiro de 2022

A lenda d'O Eu vi - Lendas de Roteiro

    Nos últimos meses, eu venho organizando em Roteiro (AL) uma coletânea de lendas urbanas de terror, como parte de uma estratégia de resgate das raízes culturais do município, para o qual estou retornando, depois de 8 anos estudando e trabalhando em Maceió. Trata-se de uma ação do Projeto Deuscrever, fundado por mim em 2015 e hoje atuante como facilitador da formação cidadã e intelectual de roteirenses em diferentes idades. Dentre as dezenas de contos coletados e registrados, em inúmeras conversas com moradores da cidade, uma lenda se destacou para mim, por sua abrangente possibilidade de me suscitar reflexões, além dos inusitados acontecimentos reais em torno dele. Trata-se do conto chamado pelas autoras de "O 'Eu vi'". Vou narrar o conto pra você:

O "Eu vi"

    Cinco amigas estavam fazendo uma festa do pijama, em uma casa alugada, de aparência sombria, com a pintura gasta da chuva, na rua do Ginásio. Duas das mais velhas se dispuseram a preparar um lanche noturno, enquanto as mais novas ficaram jogando Uno na sala. Uma das meninas que foram cozinhar de repente sentiu vontade de se juntar às mais novas para jogar, deixando a outra sozinha no preparo do lanche. Passados alguns minutos, a menina que estava sozinha apareceu repentinamente diante da cortina vermelha que separava a sala da cozinha. Ela estava pálida e tremendo, quase sem voz, falando:  - eu vi!

    Após algum tempo, as amigas conseguiram acalma-la, e então perguntaram: - o que você viu? Mas ela simplesmente não sabia descrever, apenas repetia: - eu vi.
Até hoje, a menina não consegue falar sobre o que viu e evita o assunto a todo custo. Ela, inclusive, se mudou para Satuba depois desse acontecimento.

Autoras: Léia Melo, Joyce Cristine e Jaqueline Texeira
Revisão: Samuel Melo
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    Independente do que o conto seja capaz de despertar em você, leitora ou leitor, um acontecimento curioso nos chamou a atenção recentemente. Eu estava em Maceió, como de costume, quando recebi no WhatsApp uma mensagem da Léia, uma das autoras e minha irmã. Ela dizia: "Roubaram a nossa lendaaaaaa". 

    A mensagem trazia a capa do lançamento da Netflix: "Eu vi", uma produção dentro da literatura de terror ou, do ponto de vista psicanalítico, literatura do Infamiliar. Ficamos chocados, mas, mesmo assim, não acionamos nossos advogados, porque não os temos (😓).
Como assim? Existe um arquétipo do "eu vi"? Ou alguém "nos ouviu"?

    Calma! Ainda não há razão, me parece, para falar que existe um "arquétipo do 'eu vi'". Jung não precisará ressuscitar para dizer: "- eu vi!" Quer dizer, 😅 ele não virá para dizer: "- tá vendo? Eu falei!"

    Estaremos seguros dentro da seara da psicanálise lacaniana. Isso porque se há algo universal na atividade psíquica humana, é a sua inabilidade em falar, inscrever e descrever o Real - esse que é, segundo a psicanálise lacaniana, o campo que congrega tudo aquilo que a razão humana não consegue entender e explicar.

    É ao Real que a expressão "eu vi!", nesse contexto, me remete. Isso porque ela me lembra das limitações do simbolismo humano de significar o inefável, o indizível da morte, por exemplo, que está na superfície de todo e qualquer conto e literatura de terror. Esses contos expressam a angústia subjacente nas inúmeras tentativas da psique humana de entender, categorizar, nomear esse inevitável e temido evento, o qual nosso inconsciente jamais aceitou como possibilidade. Ele, esse antiquísimo selvagem que nos habita, movido pelo mais absoluto animismo, regido pela intuição mais do que pela razão; ele, o inconsciente, com seus fantasmas e suas bruxas, jamais foi capaz de compreender, explicar ou admitir a morte como parte invencível de sua experiência.

    Para além da morte enquanto experiência pura, enquanto efeito, podemos pensar no caminho até à morte. Como aquela busca desesperada por reconforto, por explicações, que é visível quando buscamos o atestado de óbito de um parente, a fim de sabermos qual foi a "causa da morte". Ou quando buscamos "justiça" à nossa família, no momento em que algum dos nossos é ceifado pela maldade de um assassino ou pela imprudência de um motorista bêbado. O atestado e a "justiça" não nos explicam o que é a morte do nosso parente, mas nos fortalecem simbolicamente com o principal alimento humano, a "sopa de letrinhas", as palavras, que nos ajudam a significar, a "explicar" o caminho até à morte. Aliás, não admira que isso baste para trazer algum conforto, porque é exatamente nesse ponto que nós estamos - o caminho até à morte. E até quando vivenciamos a perda de um parente, é com nosso próprio passamento (ou "Passagem", como você verá noutra de nossas lendas urbanas!) que estamos, também, lidando. 

    E é a partir de palavras de um Outro, supostamente detentor de um poder sobre a vida e a morte - a medicina, a justiça, a psicologia, a educação física, a estatística, a epidemiologia, a religião, que vamos construir nossas próprias previsões sobre a morte - a expectativa estatística de vida, a expectativa própria, a partir de nossos comportamentos alimentares e de nossas relações com as drogas etc. Dessa "expectativa própria de vida" surgem, me parece, as mudanças de hábitos, a vida "fitness", assim como o orgulho pela vida curta garantida pelo colesterol alto, álcool, comportamentos perigosos. "Nesse ritmo, não! Não tem santo no céu e na terra que faça 'nois' chegar nos 80", diz a voz de um idoso, que se tornou meme na internet, e que está sempre ao fundo de vídeos gravados em ocasiões de "autodestruição programada", algo que me lembra a "obsolescência programada", que os smartphones parecem nos haver ensinado a usar como uma espécie de fantasia de poder sobre a nossa própria morte, já que, supostamente, a conseguiríamos prever quanto ao tempo, modo e circunstâncias. Vai vendo!

    O conto do "Eu vi" (o de Roteiro, não o da plagiadora Netflix! 😂) já começa enfatizando uma razão muito comum de angústia em Roteiro, assim como em todo o Brasil - o aluguel. "Cinco amigas estavam fazendo uma festa do pijama, em uma casa alugada". Além do motivo do aluguel, aparecem outros aspectos de uma angústia parecida, porque converge para o medo da pobreza - a "aparência sombria" proporcionada pela "pintura gasta da chuva". 

    Ora, em Roteiro é muito comum encontrar casas com esses aspecto, uma vez que mais de 50% da população da cidade vive (ou tenta viver) com uma renda igual ou inferior a meio salário mínimo - R$ 606. A média dos aluguéis cobrados para casas com essa "aparência sombria", ou seja, sem manutenção de pintura e, frequentemente, com estrutura inadequada, costuma variar entre R$ 200 e R$ 350. Isso representa quase metade da renda total da maior parte das famílias de Roteiro. O que resta para comer? Pois é! Isso não deixa de aparecer no conto, quando "duas das mais velhas se dispuseram a preparar um lanche noturno, enquanto as mais novas ficaram jogando Uno na sala". A questão que, para mim, permanece é: o que será que essas meninas foram preparar como lanche? O preparo de um lanche em casas tão pobres costuma demandar muita criatividade para inventar algo que agrade ao paladar, porque os ingredientes são escassos. Por isso, não me surpreende que uma das meninas desista da tarefa e vá se distrair jogando Uno. Eu falo porque já passei muito por isso... 3 horas da tarde, ou 10 da noite, estar reunido com a família e querer tomar um lanche, tendo, porém pouquíssimo dinheiro e quase nada na cozinha. A pobreza é um dos principais caminhos para a morte!

    Bom... a paralisia e o terror da expressão da menina que ficou sozinha na tarefa de preparar um lanche realmente me fazem pensar se o "Eu vi" não poderia ser, em alguma das "festas do pijama" de Roteiro, a falta de comida na cozinha; ou se não poderia ser a vergonha e a frustração de falar para as irmãs e amigas mais jovens que não tinha nada para comer. Por outro lado, tenho certeza que, nas cozinhas, muitas meninas de Roteiro, hoje, vivenciam cenas de terror e medo de morrer... de fome, de vergonha. 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Amor e álcool - Coluna Polis & Cia

Era mais um dia de domingo comum em Maceió, AL. Eu saí de casa paramentado pra um compromisso. No ponto de ônibus, chegou um rapaz, certamente mais velho que eu, com uma flanela e um borrifador com álcool.

- Rapaz, só eu vim trabalhar hoje?! Não tem um vendedor na rua! - Exclamou, sorridente, a mim e a outras poucas pessoas que estavam ali.
- Sim. Não tem muitos passageiros nos ônibus, dia de hoje - Respondi.
- Cara, você já ouviu falar num negócio chamado neoliberalismo? - Me perguntou, enquanto sentava-se.
- Sim. Com certeza! - Respondi, curioso.
- Eu tô lendo um capítulo de um livro que fala disso. O livro chama "Novo Enem". É de uma autora... esqueci o nome dela... Já ouviu falar?
- Não, não... - Respondi, tentando lembrar o nome de Naomi Klein, que poderia ser a autora a quem ele se referia.
- Deve ser bom, né? O "Novo" tá assim, entre aspas, aí, vem: "Enem e o dono da voz". - Explicou, demonstrando haver entendido alguma intenção irônica no título, mesmo que os sinais realmente aplicados sejam os colchetes.
- Sim. Deve ser bom. Nunca ouvi falar sobre esse livro. Você sabe de quando é? - Respondi e perguntei.
- Ele tá aqui na minha maleta. Deixa eu te mostrar! Eu achei esse livro no lixo, você acredita?
- Acredito!! - Respondi sarcasticamente, porque novidade seria ver um livro desses na estante de algum brasileiro.
- Esse livro, essa maleta... tudo, eu tirei do lixo... Porque eu sou capaz de meter a mão no lixo, mas não meto a mão no seu bolso pra tomar o que é seu. - Continuou.
- Tudo meu é achado no lixo, mas não pego do bolso de ninguém. - Repetiu em voz alta, para as outras pessoas ouvirem, demarcando seu lugar de fala como um trabalhador, honesto, dócil.

Ele, por algum motivo, desistiu de abrir a maleta. Talvez porque o ônibus que ele esperava poderia aparecer a qualquer momento e seria uma correria guardar de novo o livro enquanto embarcasse.
- As pessoas jogam tanta coisa boa fora! - Comentou.
- Concordei, com minha expressão, que foi interrompida pela prontidão a entrar no Eustáquio/Cruz das Almas/UFAL.

Ele pegou o mesmo ônibus.

Enquanto eu passava pela catraca, ele já se dirigia ao corredor do ônibus.

- Boa tarde, pessoal! Me chamo ******, sou morador de rua, vivo em Maceió há ** anos. Hoje, eu estou aqui cumprindo minha liberdade de expressão, prestando um serviço à população brasileira. Hoje, nós vivemos uma situação dessa pandemia e vou tá passando essa flanela com álcool 70 no ônibus, exercendo meu direito de cidadão. - Apresentou-se, mais ou menos com essas palavras, aparentemente empolgado pela relevância de seu trabalho.

Relevante demais!

Poucos dias antes, quando vi pela primeira vez um outro rapaz prestar esse serviço, comentei com meu irmão sobre a importância desse trabalho no contexto da pandemia. Nesse dia, cheguei a pensar que esse outro rapaz era um funcionário da empresa de viação. Mas, claro, estamos falando de neoliberalismo... Os cobradores (que são os cobradores!) estão sendo descartados em nome do aumento dos lucros e a adição de 2 passageiros em seu lugar, quê se dirá da contratação de qualquer funcionário?! Óbvio que aquele rapaz não era um funcionário da empresa de ônibus!

Pois bem... Depois de alegremente higienizar algumas partes do ônibus e as mãos dos passageiros, como um trabalhador que se orgulha da relevância de seu trabalho, o rapaz lá do ponto de ônibus sentou-se ao meu lado, borrifando álcool nas minhas mãos (e coxas, rsrs).

- Deixa eu te mostrar, aqui, a capa do livro, pra você depois pesquisar. - Disse-me, recebendo de mim uma das moedas daquele ônibus e abrindo a maleta.

Vi o livro.

"[Novo] Enem e o dono da voz", de Joana D'Arc Ferreira de Macêdo e Elione Maria Nogueira Diógenes (2014).

- Legal. Valeu! - Agradeci.

Ele desceu às pressas no antigo Hiper. Estávamos indo no sentido Cruz das Almas.
Me senti extremamente motivado pela inteligência e força de vontade daquele homem. Me alegrei, principalmente, pelo capítulo que ele iria começar a ler.

Provavelmente, ele já leu esse capítulo e, certamente, depois dessa leitura, muita coisa vai mudar no seu modo de agir e de ver o mundo, o trabalho, os conceitos de direitos e deveres, o conceito de trabalhador, cidadão... Ficará mais difícil para ele confundir "direito" e "dever" e ele entenderá o que, provavelmente, fez com que esse livro estivesse no lixo. O conhecimento trazido por esse livro (que, aliás, tenho a obrigação de ler!) dará mais ferramentas a esse cidadão que espalhou amor em forma de álcool naquele ônibus repleto de trabalhadoras descontentes com o "rodo cotidiano", parafraseando "O Rappa", com o troco "pouco, quase nada" da passagem.

Bom, pelo menos, é isso que eu espero do capítulo... e do leitor.

Especialmente naquele dia, eu estava ciente da gravidade do quadro do tio Fábio, na UTI Covid-19, em Arapiraca. Eu sabia que ele não sobreviveria à falta de amor, de compaixão, de patriotismo, de bom exemplo, de álcool 70, de máscara, de vacina. Sabia que ele não realizaria o seu desejo, comunicado a mim na nossa última conversa, de comprar uma moto de alta cilindrada e viajar o Brasil. Eu sabia que não teria mais a ocasião de dizer que ele estava certo sobre o conjunto de direção da minha moto.
Tudo isso me angustiava e revoltava nessa pequena viagem. Porque, afinal, o que parecia ser abundante nesse herói das ruas, tem saldo negativo no governo federal. Não existe, no Planalto, o que Freud chamaria pulsão de vida e o que Hannah Arendt chamou "amor mundi"... Faltou e falta o patriotismo desse rapaz, o seu amor pela vida.

Afinal...

"Um catador faz mais que o ministro do Meio Ambiente [etc.]".

Dedico ao amigo, agente de saúde autônomo e ambulante, a música "O bem", do grandioso Arlindo Cruz. 

Samuel Melo é um psicólogo e psicanalista, formado em psicologia na Universidade Federal de Alagoas. Homem pardo, maceioense do Trapiche da Barra.

Anderson Samuel da Silva Melo - CRP-15/6004

Instagram: @samuelmeloal
WhatsApp: (82) 9 8810-7158

domingo, 25 de abril de 2021

Resultados da psicoterapia - Coluna Saúde-se

Na prática da clínica psicanalítica, está clara para o psicanalista a existência de duas categorias importantes para a direção do tratamento: 1) a dimensão do pensamento e 2) a do acontecimento. Elas não são criadas no consultório, nem, tampouco, só aparecem ali, mas fazem parte da nossa experiência de vida. No cotidiano e ao longo de nossas histórias pessoais, apenas uma parte muito pequena dos acontecimentos é percebida por nossa consciência e processada em forma de pensamento. Assim, já se pode perceber, de acordo com essa hipótese, que não estamos, definitivamente, no controle absoluto das situações. Demais disto, a parte muito pequena dos acontecimentos sobre a qual nós ainda temos alguma participação e possibilidade de relativo controle, sofre com a imprevisibilidade do acaso e a ação de motivos inconscientes que reivindicam para si autoria nas decisões e rumos que tomamos.

"O Eu não é senhor em sua própria casa", já nos disse Freud. Se é que a "casa" - o corpo, os pensamentos, os afetos - é mesmo do Eu - essa entidade que percebe, pensa, quer, deseja e que permite que um certo Samuel escreva um texto falando sobre resultados de uma psicoterapia.
Uma vez reconhecida essa dimensão do acontecimento inconsciente, que independe do pensamento e da consciência, falemos um pouco sobre como isso fornece material de compreensão para nós, analistas, conduzirmos os casos que atendemos. Lembrando que o "acontecimento inconsciente" seria algo como o representante humano da dimensão da natureza e seus acontecimentos até então inevitáveis e incontroláveis - e aqui não estão incluídos, é claro, aqueles eventos sabidamente relacionados com mudanças climáticas decorrentes da ação humana.

Durante algum tempo, durante o meu período de estágio em psicologia, atendi uma pessoa que parecia não dar a mínima para o que eu lhe falava... A pessoa parecia muito mais preocupada em descarregar tudo o que nunca falou para ninguém em sua vida, sem enxergar necessidade ou sem querer ouvir qualquer palavra proferida por mim, como analista.

- E agora? - pensei, por semanas.

O trabalho do analista se dá, exatamente, através da interpretação do que ouve e do ato analítico, que, muitas vezes, é praticado através da palavra do profissional. O que eu iria fazer, então? Parecia que o meu trabalho ali estava sendo feito em vão.

Mas, com o passar do tempo, no ritmo da minha curiosidade e angústia, por querer desenvolver um trabalho adequado, fui percebendo que algo acontecia na experiência daquela pessoa... Mudanças ao nível do seu comportamento e do direcionamento de sua atenção - ela passava, a cada semana, a me falar sobre coisas que decidia fazer e deixar de fazer, que lhe distanciavam do rumo autodestrutivo que até então seguia; falava sobre como refletia a respeito de suas avaliações dos acontecimentos de sua vida, aproximando-se, cada vez mais, de soluções pautadas na preservação de sua vida e de seu bem-estar. A psicoterapia estava surtindo, justamente, os efeitos que eu buscava com minhas intervenções.

O que aconteceu?

Bom, eu percebi que, na prática, diante de mim estava uma pessoa, como qualquer outra, "dividida", no sentido freudiano e lacaniano do termo... Uma pessoa dividida ao meio... Metade consciente, metade inconsciente.

A consciência daquela pessoa poderia até não me dar ouvidos (não posso dizer que se tratasse disso!), mas seu inconsciente, com sua memória infalível, estava atento ao que um jovem novato da psicanálise falava. O inconsciente daquela pessoa estava, a cada sessão e a cada dia, dentro e fora daquele consultório ensolarado da clínica-escola, se apropriando e integrando em seu curso de palavras, as curtas frases que eu gotejava naquela esteira de significantes que passava diante de mim uma vez por semana.

Poderia ser que aquela pessoa sequer pensasse sobre o que eu falava, mas minhas intervenções produziam efeitos ao nível dos acontecimentos, sem dúvida! Considerando a hipótese de ela mesma não perceber tais resultados (o que não foi o caso!), ainda assim, eu poderia reconhecê-los como resultados positivos, de um ponto de vista técnico, considerando os objetivos gerais de uma análise, ou seja,  mitigar o sofrimento e impulsionar o sujeito para longe da pulsão de morte e para perto da pulsão de vida.

Creio que lhes apresentei um bom exemplo do que são essas duas dimensões importantes na clínica - o pensamento e o acontecimento; e que pude esclarecer algo sobre os resultados de uma análise/psicoterapia.

Na clínica, as coisas não somente são ouvidas ou faladas.
Na clínica, as coisas acontecem!

Samuel Melo é um psicólogo e psicanalista maceioense. Homem pardo, formado em psicologia pela Universidade Federal de Alagoas (2020), ex-estagiário do Serviço de Psicologia Aplicada do Instituto de Psicologia da UFAL.

Instagram: @samuelmeloal
Anderson Samuel da Silva Melo - CRP 15/6004


sábado, 24 de abril de 2021

Psicanálise, preços, desigualdades sociais, Maceió - Coluna Polis & Cia

Os principais esforços no início de qualquer atendimento psicanalítico devem ser direcionados à construção de um ambiente propício à emergência da fala do sujeito. E isso implica uma gradativa passagem de aspectos objetivos para elementos mais propriamente subjetivos, mesmo que a queixa, aquilo que leva uma pessoa a procurar nossa ajuda, seja, naturalmente, algo da ordem do sofrimento psíquico. No fundo, a separação entre o que seria objetivo e o que se caracterizaria como subjetivo é apenas um esforço didático, pois prevalece no acontecer humano uma interação interdependente desses dois aspectos.

Mesmo que uma analista ou outra não concorde com essa maneira de acolhimento que proponho aqui, ela ou ele dificilmente discordarão que são, primeiramente (depois da queixa, evidentemente) as condições e coisas objetivas que trazem qualquer sujeito ao seu consultório, - como, por exemplo e possivelmente: o número do WhatsApp, do telefone, o endereço do consultório, o ônibus, a cadeira de rodas, a bicicleta, o carro, a moto do analisante, sua renda, o acesso à internet, o crédito no celular e, por fim, o currículo do analista, que é o que, basicamente, sustenta sua ''boa fama", em muitos casos ("onde ela se formou?" "Fez especialização?" "Atende há quanto tempo?" "Tem quantos anos de idade?" etc.). E esse currículo tem migrado, cada vez mais, da plataforma Lattes para o Instagram e redes semelhantes, o que mostra como estamos cada vez mais percebendo a necessidade de lançar mão de ferramentas bastante objetivas de alcance ao público.

Meus colegas psicanalistas certamente, neste ponto, podem fazer uma objeção, lembrando do fato de que, muitas vezes, é o testemunho da experiência de uma analisante ou outra que leva algumas pessoas ao consultório de um psicanalista e, se isso é verdade, o que está em jogo nessa comunicação "boca a boca" é algo de ordem subjetiva - as avaliações da qualidade do serviço do analista, expressas em frases como: "ela deixa você falar e respeita o seu tempo", "ele deixa você à vontade", "ela fala coisas que vão direto ao ponto e esclarecem muitas questões que você nem tinha percebido", "ela tem uma memória muito boa! Lembra de tudo que você já falou." Observo, contudo, que, em conglomerados como Maceió, Alagoas, onde os índices de vulnerabilidade econômica são alarmantes, há grande chance de a frase "ela negocia o preço das sessões de acordo com o que você pode pagar" ser um enunciado igualmente potente, equivalendo às análises subjetivas positivas sobre a qualidade do atendimento. E, vale dizer, essa frase aponta para um fator inegavelmente objetivo, algo do "Real"... Mas, calma, colegas! "Real", no sentido monetário... Nossa moeda nacional. Não me refiro ao registro lacaniano do Real. 

Trocadilhos à parte, quero chamar a atenção do leitor, principalmente meus colegas de consultório, para a séria questão do acesso à psicanálise, a necessidade de assumirmos, em Maceió e em localidades onde a pobreza faz parte da paisagem, o compromisso de construir estratégias de difusão da psicanálise como patrimônio público, sem abrir mão, é claro, da garantia de crescimento material e profissional dos próprios analistas, uma vez que a psicanálise, aqui em Maceió, tem se mostrado um potente instrumento de ascensão social a muitos profissionais recém-formados e provenientes das classes sociais menos favorecidas, como eu mesmo - analistas também pagam e atrasam boletos!

Acredito que, na capital alagoana e nas cidades do estado, como psicanalistas, devemos fazer algo como o que Freud e os pioneiros da psicanálise fizeram na Europa há, mais ou menos, um século, no período entreguerras. O que os primeiros psicanalistas fizeram, principalmente em Viena e Berlim, foi um marco histórico, que Elizabeth Ann Danto (2019) nos expõe como resultado de uma minuciosa escavação e análise de achados da história da psicanálise, e que reposiciona essa frente teórica e clínica como essencial e historicamente comprometida com a justiça social e o combate às desigualdades sociais, diferente do que muitos escritores e professores difundem nos livros, revistas e salas de aula.   

Entretanto, se as críticas de que a psicanálise seria uma clínica elitista existem, deve ser porque alguns psicanalistas, talvez, se fechem à possibilidade de ampliar e fazer chegar às periferias o atendimento psicanalítico. Penso nisso como possível fruto da cultura dos consultórios médicos brasileiros que, como todos sabemos, prezam, em grande medida, pelo encarecimento de seus serviços, permanecendo indiferentes às condições econômicas dos locais onde atendem. O que contradiz meio mundo de termos de seu juramento de formatura - "enfim, a hipocrisia!"

No que toca à atitude dos psicanalistas, não posso afirmar isso peremptoriamente com respeito a qualquer território de ação da psicanálise brasileira, nem, tampouco, no tocante ao território maceioense e alagoano. Só posso dizer que, em Maceió, o receio com relação ao preço do atendimento é muito frequente nos contatos que recebemos cotidianamente. E isso implica, a meu ver, a necessidade de ações mais ativas e diretas por parte de nós, profissionais, a fim de que possamos dizer aos maceioenses que, nos consultórios de muitos psicólogos e psicanalistas, não somente as emergências mais propriamente subjetivas recebem atenção, mas também o caminho até elas - questões como "quanto custa a sessão ou a mensalidade?" são tidas como parte do processo de análise e psicoterapia, porque, se a pessoa não puder pagar pelo atendimento, ela não será atendida; logo, não haverá psicanálise. Assim, sei de muitos colegas que, tal como eu, veem o pagamento muito mais como uma questão de condução do caso do que como uma questão administrativa - seguindo o exemplo do movimento psicanalítico entre 1918 e 1938.

Atender as populações menos favorecidas e aquelas em extrema pobreza, aliás, frequentemente se mostra uma atividade rentável para os psicanalistas, o que aponta um caminho bastante promissor, principalmente para jovens analistas, que gozam, muitas vezes, de menor notoriedade em relação a analistas mais antigos e podem encontrar nesse esforço de inspiração humanitária uma rica maneira de fazerem seus nomes circularem. Isso porque, se, por um lado, o preço pago por algumas pessoas pode ser considerado baixo, em termos do custo de vida do analista, essa abertura a uma negociação justa multiplica o número de analisantes, gerando rentabilidade. O que acontece é algo como o comércio de produtos de baixo custo, mas de alta rotatividade - como o Cremosinho, por exemplo. O dono da fábrica certamente ganha uma grana, mesmo seu produto sendo muito barato. Isso acontece porque ele vende muito, justamente por ser barato. 

"Mas, Samuel, a gente estudou e estuda tanto... A gente merece ganhar bem."

Sim! Merece, e muito! Mas nossa profissão também é uma missão. Na colação de grau, prometemos contribuir para o desenvolvimento do gênero humano. E essa me parece uma boa forma de cumprir esse juramento. Assim como existem muitas pessoas que só podem pagar um pouquinho, tem gente que vai poder pagar valores mais altos. Estabeleça sua média e moda (valor mais frequente negociado) de preços para os dois tipos de público... Isso ajuda muito na organização da receita.

Eu também vejo, na minha experiência, como os ganhos terapêuticos e analíticos da psicanálise podem colaborar, em grande  medida, com o crescimento não só pessoal, mas, inclusive, material e profissional das pessoas atendidas. Vejo como uma pessoa cada vez mais capacitada para lidar com seu sofrimento aumenta suas chances de ascensão social, vejo como passa a ganhar mais dinheiro, mesmo... E, assim... Não é por nada, não. Mas, também, passa a poder pagar mais caro pelo atendimento, o que mostra como essa relação analítica de parceria, de acolhimento técnico, acaba fazendo bem para as duas partes.

Freud e os pioneiros da psicanálise, assim como inúmeros políticos e atores sociais, principalmente de Viena, achavam que o acesso à psicanálise "seria a libertação das pessoas. Para conseguir que elas ficassem realmente livres de neuroses, para que estivessem mais preparadas para [realizar e gozar a vida] [1]", como disse Freud. (Recorte de entrevista de Helen Schur, esposa do médico pessoal de Freud, a Elizabeth Ann Danto, em 1995. [Cf.: DANTO, 2019, p. XLI]).[1]

Eu também acredito nisso!


Samuel Melo é um psicólogo e psicanalista maceioense. Homem pardo, formado em psicologia pela Universidade Federal de Alagoas (2020).

Anderson  Samuel  da Silva  Melo - CRP-15/6004

Instagram: @samuelmeloal

WhatsApp: 55 82 9 8810-7158



Notas e referências

[1]DANTO, Elizabeth Ann. (2019). As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social, 1918-1938. Trad. Margarida Goldstajn. São Paulo: Editora Perspectiva. (Coleção estudos; 368/coordenação J. Guinsburg (in memoriam).

Esforços atuais de tradução da obra freudiana têm apontado como errônea a tradução "trabalhar e amar", preferindo os termos "realizar e gozar". (Conferir: FREUD, Sigmund.. 2019. Amor, sexualidade, feminilidade. Trad. Maria Rita Salzano Moraes. 1. Ed.; 2. Reimp. Belo Horizonte: Autêntica Editora. (Obras incompletas de Sigmund Freud ; 7).

Experiência de cidade. (2021).

Experiência de consultório. (2021).

sexta-feira, 23 de abril de 2021

O ganho terapêutico e o voo em Marte - Coluna Saúde-se

 ‌‌‌‌‌Com a palavra, a palavra, que vale mais do que mil imagens...

O texto de hoje serve muito mais aos colegas de profissão, por causa do uso de termos técnicos sem uma explicação do que eles significam. Mas tenho certeza que qualquer pessoa que o leia sairá ganhando.

Vamos lá!

Uma moção essencialmente imaginária, quando não acolhida e processada majoritariamente pelo registro simbólico, opera a mais diversificada gama do sofrimento psíquico e, por conseguinte, de sintomas. O papel da análise, como fortalecedora do "sistema operacional" simbólico, não é extinguir o registro imaginário e suas moções, mas sim amparar o sujeito com elementos simbólicos capazes de dissipar as frequentes "nuvens imaginárias" que produzem sofrimento e sintomas pouco conectados com a "realidade" - ou seja, com o conjunto de fenômenos, coisas e acontecimentos que obteve, ao longo da história da humanidade, o status de "realidade", por ser capaz de apresentar algum grau, ainda que irrisório, de constância e gozar, por isso, de certo consenso nas comunidades científicas e filosóficas. Assim é que, por exemplo, uma pessoa não analisada, ao ser atingida por uma "nuvem imaginária", cuja gramática possa se traduzir pela  frase "nada na minha vida está indo como eu gostaria", terá grande chance de ser acometida de um sofrimento muito amplo, obedecendo a essa frase e ignorando possíveis "fatos mais realistas" (observadas as questões da ideia de realidade apresentadas acima), como a sua factual realização material e financeira, por exemplo. Por outro lado, uma pessoa analisada, seja por ato direto do analista, seja por reflexão do próprio analisante, provavelmente, responderá a essa nuvem imaginária com "jatos simbólicos dissipadores" traduzidos por frases como: "na verdade, há setores da minha vida onde tenho obtido realizações, como a parte financeira", "as áreas da minha vida onde as coisas não estão indo como eu gostaria representam apenas uma parte da minha vida e não o seu todo". Nesse sentido, a ação simbólica frente ao imaginário representa, muitas vezes, algo como "um ponto de basta" numa moção, frequentemente poderosa, que surge com o potencial de produzir sofrimento sem objeto ou objetos minimamente definidos, considerando quais sejam os jogos discursivos, os símbolos e signos da cultura à qual o sujeito pertence e, ainda, a sua avaliação, nesse contexto, de onde se inclui ou se exclui, enquanto integrante do corpo social. 

‌Basicamente, podemos dizer que o aparelho psíquico, ao se estruturar tal como uma linguagem, dispõe do registro simbólico como eficiente leitor dos códigos criptografados do registro imaginário. Acredito que podemos dizer, ainda, que o registro simbólico opera uma tradução das imagens (do imaginário) em palavras, produzindo um processamento de dados que, frequentemente, afasta o sujeito do mal-estar. As palavras são o modo de tradução da realidade (e do Real) que produz os efeitos mais duradouros nos humanos, ainda que essa tradução seja impossível e estejamos condenados a somente traduzir os fenômenos do corpo, do aparelho psíquico, da terra e do universo sob o predicativo do "como se".

‌Tão inevitável como a condição do "como se" na interpretação humana de coisas e fenômenos, é a leitura de toda e qualquer coisa como se fosse um texto e, obviamente, possuidora de palavras a serem traduzidas, sejam escritas (como os hieróglifos, por exemplo), sejam faladas, como confessam, indiretamente, as ciências astronômicas, ao investirem em equipamentos cada vez mais sofisticados, capazes de captar ondas de rádio ao redor do universo, as quais poderiam conter códigos linguísticos de outras civilizações - vivas ou mortas. 

‌Todo e qualquer avanço na descoberta de algo desconhecido e na sua compreensão passa pela palavra. 

Isso não significa dizer que haverá qualquer tipo de controle, por parte do analisante ou do analista, qualquer tipo de submissão dos pensamentos, afetos e impulsos a uma razão absoluta. Trata-se, em contrário, de inserir no discurso do sujeito a dimensão da averiguação dos fatos, com base na inserção da dúvida, recorrendo ao máximo de significantes que se possa extrair de sua fala.

‌Trata-se de reposicionar o seu pensamento, de S1 (um significante-mestre, dogmático, que bloqueia a reflexão) em S2 - uma infinidade de significantes, que impulsiona o sujeito no sentido da construção de várias hipóteses sobre o que significa o seu sofrimento.

‌Ao público geral, aconselho: fale com um/a psicanalista! 

Ao colega de profissão: fale como e com um/a psicanalista!

domingo, 25 de outubro de 2020

Meu analista tá me ouvindo? - Coluna Saúde-se

Qualquer pessoa que se coloque diante de um psicanalista vez ou outra se inquietará com a forma da conversa que se desenrola na sessão. Por vezes ela pode ter a impressão de que o analista não entende ou, simplesmente, ignora uma parte do que ela fala. Bom, geralmente não é isso que de fato acontece numa análise. Posso dizer que, na maioria dos casos, essa forma de escuta é um indicativo de que o analista segue fazendo bem o seu trabalho. isso porque o que está em jogo na análise, antes de qualquer coisa, é o desvendar do inconsciente, as suas tramas e formações, de um modo geral. E embora isso só seja possível com o auxílio da consciência - que permite ao analisante encontrar o consultório, pegar um ônibus ou dirigir até lá, telefonar, falar -, é ao inconsciente que o analista voltará os olhos e os ouvidos, o corpo e a sua voz, sempre que ele aparecer na fala da pessoa atendida. Um exemplo bastante ilustrativo disso é quando o analista percebe, na fala do analisante, o mecanismo da negação. E esse, aliás, é um ponto bastante conflituoso e problemático da psicanálise, quando vista e analisada por pessoas que não são da área, inclusive pelos próprios analisantes, podendo dar origem aos mais variados tipos de desavenças - desde uma discordância teórica até o rompimento de uma relação analítica (entre analista e analisante).

A negação é um processo que auxilia muito o analista, na medida em que ela é o que permite que algo recalcado (rejeitado) pela consciência seja novamente admitido por ela, ainda que sob a forma da negação. Uma pessoa que, por exemplo, nalgum momento deseja algo socialmente proibido, que, por ser proibido, é rejeitado pela consciência e tornado inconsciente, poderá encontrar uma forma de readmitir esse desejo na consciência trazendo-o à tona na forma negativa: "eu odeio isso". O analista, diante dessa negação, irá subtrair o "não" implícito da frase e verá razões para apostar que ali se manifesta um desejo tornado inconsciente (Sigmund Freud, 1919/2019, p. 141)[1]. CLARO: isso deve ser considerado levando-se em conta tudo o que já se ouviu do analisante até então. Aquilo que o analista acredita que possa ser uma negação, ele deve explorar, questionar, instigar o analisante a falar sobre, sempre respeitando os seus limites. Tem coisa que você não se sente à vontade pra falar ainda! O analista precisa respeitar isso e, ao mesmo tempo, abrir espaço para que haja cada vez menos inibição da parte do analisante. Sem pressa!

E qual o valor dessa aposta na suposta negação? Bom, ela tem um valor analítico, porque vai dar corda à análise; o sujeito vai se tornando cada vez mais consciente de seus processos, passando a ter mais clareza na condução da sua vida. E essa aposta também tem um valor terapêutico em alguns casos, já que um desejo rejeitado pela consciência pode retornar na forma de sintoma, e basta lembrar que são os sintomas que, na maioria das vezes, levam as pessoas a um psicanalista. De um modo geral, quando esses sintomas são dissecados até se descobrir qual é a trama inconsciente por detrás deles, o sujeito vê aumentarem as suas chances de alívio. Mas a questão da negação é apenas um exemplo de como a atenção do analista deve estar voltada para aquilo de inconsciente que se apresenta na fala do analisante. Esse direcionamento da atenção é o que explica a sensação de não estar sendo ouvido pelo analista.

Por fim, a análise é mesmo inquietante, às vezes. Afinal, trata-se do sentimento infamiliar de se encontrar consigo mesmo. Não é massagem, não é acupuntura... é análise! 

Ah! Sim, sim! Eu diria que seu psicanalista provavelmente está te ouvindo. Na dúvida, aposte nele! Tem um trabalho muito minucioso na base de sua clínica; trabalho de análise pessoal, de estudo e de supervisão (consultoria por parte de outros analistas).


Samuel Melo é natural de Maceió. Um homem pardo, psicanalista, formado em psicologia pela Universidade Federal de Alagoas.



Referência

[1]FREUD, Sigmund. (1919/2019). O infamiliar e outros escritos / Sigmund Freud ; seguido de O homem da areia / E. T. A. Hoffmann ; tradução Ernani Chaves, Pedro Heliodoro Tavares [o homem da areia ; tradução Romero Freitas]. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora. -- (Obras Incompletas de Sigmund Freud ; 8)